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BRUXO VELHO DA BEIRA DO RIO

Beira-Rio 1969
E então, velho, tu vai abrir os olhos pra nós te vermos outra vez.Antes de mais nada, é preciso dizer que os dias sem ti foram uma noite sem fim. Andamos sem rumo, ceguetas, em rodopios, tateando, malenjambrados de todo. De fato,velho, ninguém foi mesmo a lugar algum: ajorjamos a alma aos teus pés – e daqui, eu te juro, daqui ela jamais se arredou. Ficamos velando esse teu sono bonito, esse teu refazimento. O nosso velho dorme, nós dizíamos.O velho vai acordar. Claro, houve momentos em que a gente toda se mirava numa angústia maleva – e o traseiro gelado do medo veio se engarupar no nosso cangote.É que a coisa se deu torta de começo, meio assim enviesada, no atropelo, misto instinto e gataria, à la loca. No faz não faz, quando nos demos por conta, já haviam te metido a mão e te partido as entranhas, e te revirado por dentro, e castigado a prumo, por baixo e por onde mais deu. Te esgualeparam, velho, te esgualeparam e ficou por isso mesmo. Doeu fundo te ver sangrado, segurando no osso, até não mais poder. E quando enfim tu vergou, quando enfim tu silenciou, nós junto caímos mudos também.Mas o berreiro se fez preciso – e nós berramos. Ah, nós ladramos alto, acudimos à gente graúda, fomos bater longe, longe. Então os homens de tutano vieram olhar por ti, velho. Entregamos a rédea a quem sabia do riscado, pra te cercar de todo cuidado. E nos foi dito pra serenar os ânimos, que o velho ia sair dessa novo. Nos restou esperar. Coração pequeno, aguardamos a hora boa de te ter conosco outra vez.Nesse hiato infindo de saudade, virou rotina, no lusco-fusco das domingueiras, a gente encher os canecos de tristeza e sair batendo cabeça por aí, reclamando que sem o velho não dava, sem o velho não havia jeito, sem o velho não tinha como. Quase todos os dias alguém vinha dar aqui, à tua volta, caminho que o espírito guiava. Visse o velho? – a gente se perguntava um pro outro, a todo momento: Visse o velho? Passasse lá pra ver o velho? Não houve quem não visse. O velho vai ficar bom, todos concordavam. E vai porque tem que ficar, vai porque a gente precisa de ti, velho. Porque sem ti como é que faz? Sem ti nunca se fez. Sem ti não se sai do lugar, se rodopia, sem rumo, cegueta, tateando, malenjambrado de todo.Eu muito me questionei se havia mesmo precisão disso tudo, tu sabe? Porque se nós fecharmos os olhos, num instante a gente enxerga todos os teus traços, tudo se abre como um dia te soubemos. Firme, rude, forte, imponente, guasca! Nosso velho lindo. A verdade é que pra gente tu seria sempre perfeito, velho. Não careceria nada disso, esses floreios, essas fatiotas, essas novidades. Eu ainda trago em mim o dia em que te conheci. E esse dia foram todos os dias. Velho mágico, embaixo do teu boné sempre havia coisas surpreendentes.Lembra do tal chileno? O Dom chileno-manotaço, o chileno-cordilheira, dos mil cagaços e choradeiras? E o teu pássaro imperador, da cabeça que vertia numa cascata de sol? E o catarina, velho, o catarina com pés de ferro! E o capitão-carranca que nos puxou pela gadelha na noite escura, quando já dávamos por finda a jornada. Lembra do trem-bala de alambique, levando tudo por diante? E do teu cachorro louco? O teu cão de guarda que comia tijolo. Um bicho! E do mulatinho cabelo-de-aranha, da canela fina, valente como ele só? Lembra do alemão com a bandeira, velho? E do Fernando, tu lembra? Todo mundo lembra do Fernando. É tudo cria do teu celeiro.Tanta, tanta história vivida contigo. Bem me recordo, isso jamais esqueço, a noite em que o decano nos ensinou a chorar. Hoje em dia a gente até ri. Passou. Mas houve a grande a seca, velho. A seca dos vinte séculos, da inverneira impertinente, da semeadura dos absurdos, da colheita das vergonhas. Foram nos matando à míngua, mas fizeram a burrada de nos deixar o horizonte. E tu sempre enxergou mais longe do que os outros. Lá onde a viração rebola, quando o vento se retorceu de banda, a gente podia sentir em ti que a coisa mudava. Tu te engalanou duma forma, velho, tu te empertigou dum jeito que dava gosto. Oigalê, pisoteamo eles tudo!Falando nisso, de lá também vieram te espiar. Cochichavam, escarravam de lado, punham defeito, do jeito deles. Remendaram o pobre do velho, coisa e tal. Depois saíam a passo, o olho espichado por baixo da aba. Tudo muito normal. É só mais um envido desse truco gritado que nunca se acaba. Chegaram a dizer que, ao fim e ao cabo, esse enredo todo só serviu pra te enfeitarmos a cabeça com um cocar de índio. Até não te cairia mal, chiru velho, bugre do pelo duro, dono dessa terra feito Sepé. E nós daqui retrucamos que o velho agora se cobre é com resmas de alho – coisa bem ao teu feitio, bruxo velho da beira do rio, acostumado a cortar nossos quebrantos.Mas eu te digo, velho grande, que te espalharam sobre o coco uma ramada de anjos tortos, pareados de asas cotas, que vão levar sol e chuva no lombo até aprenderem o que é devoção. E tu é quem vai ensinar. Tu mostra pra eles como é, velho? Ressuscitar esperança no grito, tu mostra? Esconder o sol no teu ombro, tu faz? Os santos borrachos pra inflacionar teus feitos, tu traz? E tua reza que é canto de guerra, tu reza? Revela o mistério de fazer da água tua terra. Põe outra vez a correr uma romaria que jamais se encerra. Junta de novo o mar vermelho, velho. Inverte as lógicas, engendra os milagres, troveja e entorta o vento de banda pra nós – que enfim é tempo de contar pro Tempo que ele é teu irmão menor. Diz pra esse piá metido que na hora do teu sono derradeiro ele não vai estar acordado pra saber. E brada bem alto pro povo, velho bendito, que agora tu nunca mais vai morrer.Então abre esse olho pra nós te vermos outra vez. Olha lá no costado do morro, na beirada do rio, a gente toda se mira numa alegria benfazeja. O chasque correu em todo o pago pra avisar que o velho acordou. Eles vêm pra ouvir os teus causos, vêm pra cantar tuas modas, pra entoar tuas coplas, velho poeta. Mas vêm mesmo e só pra reencontrar sua alma – que daqui, eu te juro, daqui ela jamais se arredou.Olha, taura velho, que vêm também os castelhanos, os orientais de ouro e fumaça, pra bater facão como tu gosta. E é bom mesmo te aprumar, que na outra Lua hay pelea bravia, dessas de só restar um de pé. Mas depois de tanto rodar, nesse sem rumo danado, tateando, de todo malenjambrado, a gente quer mais é pelear do teu lado de novo, velho gigante, porque fica muy complicado de nos derrubar.Ouve, meu velho, ouve outra vez a música, a festa, sente a loucura. A gente na rua comemora. É chegada a boa hora de te ter conosco pra sempre.Voltando aos pagos para remoçar,Emanuel Neves

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